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Khalaf al-Zahrawī, ou ''Abulcasis''

  • Foto do escritor: Consultor Espiritual Arabe
    Consultor Espiritual Arabe
  • 5 de ago. de 2022
  • 3 min de leitura

“Antes de praticar a cirurgia, deve-se adquirir conhecimento da anatomia e do funcionamento dos órgãos para que se possa entender sua forma, conexões e limites. Deve familiarizar-se profundamente com nervos músculos. ossos. artérias e veias. Se não se compreende a anatomia e fisiologia, pode-se cometer um erro que vai resultar na morte do paciente.''

Este é um dos muitos conselhos cirúrgicos do médico muçulmano medieval Khalaf al-Zahrawī, ou ''Abulcasis'', como é conhecido no Ocidente. Nascido em Azahara nos arredores de Córdoba, a magnifica capital do Califado Omíada de al-Andalus em 936, ele tornou-se célebre atuando na corte de al-Hakam II, e foi contemporâneo de outros grandes cientistas muçulmanos ibéricos como Ibn al-Wafid e al-Majriti, bem como do famoso Ibn Sina no Oriente.

Lecionando medicina, ele foi o autor de diversos tratados na área, e pioneiro em muitos dos métodos cirúrgicos que temos hoje em dia, como o uso de categute animal para suturas humanas em ferimentos internos e externos, métodos de cauterização, instrumentos para tratamento e exame da uretra, garganta e outras cavidades, neurocirurgia, bem como tratamento para lesões espinhais, hidrocefalia, derrames subdurais e cefaleia. A primeira descrição clínica de um procedimento cirúrgico para hidrocefalia foi dada por al-Zahrawi, que descreveu claramente a evacuação do líquido intracraniano superficial em crianças hidrocefálicas.

Ele foi o primeiro médico a identificar a natureza hereditária da hemofilia e descrever uma gravidez abdominal, um subtipo de gravidez ectópica que naquela época era uma doença fatal, e foi o primeiro a descobrir a causa raiz da paralisia. Ele também desenvolveu dispositivos cirúrgicos para cesarianas e cirurgias de catarata.

Ele foi o autor do primeiro guia cirúrgico ilustrado já escrito. Seus conteúdos e descrições têm contribuído para muitas inovações tecnológicas na medicina, notadamente quais ferramentas utilizar em cirurgias específicas. Em seu livro, al-Zahrawi desenhou diagramas de cada ferramenta utilizada nos diferentes procedimentos para esclarecer como realizar as etapas de cada tratamento. Nele, introduziu mais de 200 instrumentos cirúrgicos, que incluem, entre outros, diferentes tipos de bisturis, afastadores, curetas, pinças e espéculos. Ele também inventou ganchos com ponta dupla para uso em cirurgias. Muitos desses instrumentos nunca foram usados antes por qualquer cirurgião anterior.

Em farmácia e farmacologia, al-Zahrawi foi pioneiro na preparação de medicamentos por sublimação e destilação, e também no desenvolvimento de cosméticos, uma área da medicina que batizou de "Medicina da Beleza" (Adwiyat al-Zinah). Em seus tratado sobre a área, ele inventou bastões perfumados enrolados e prensados ​​em moldes especiais, que talvez sejam os primeiros antecedentes dos batons e desodorantes sólidos atuais.

Na odontologia e na periodontia, al-Zahrawi teve a contribuição mais significativa de todos os médicos muçulmanos, e seu livro continha as primeiras ilustrações de instrumentos dentários. Ele usava fios de ouro e prata para ligar dentes soltos, e foi considerado o primeiro a usar o reimplante na história da odontologia. Ele também inventou instrumentos para dimensionar o cálculo dos dentes, procedimento que recomendou como prevenção da doença periodontal.

Contudo, seu maior legado, foi sem sombra de dúvida sua enciclopédia médica nomeada Kitab al-Tasrif, que em 30 volumes, reunia toda sua experiencia e conhecimento médico, e foi completada no ano 1000. Nela, ele descreveu como ligar vasos sanguíneos quase 600 anos antes de Ambroise Paré, para o tratamento de enxaquecas e dores de cabeça, bem como outros incontáveis pioneirismos que ainda não lhe foram devidamente atribuídos. A tradução do Kitab al-Tasrif para o latim no século XII por Gerardo de Cremona, fez da enciclopédia de al-Zahrawi tornar-se o livro padrão de medicina cirúrgica na Europa pelos próximos 500 anos.

Sua morte se deu por volta de 1013, dois anos após o saque de Azahara. O teólogo muçulmano andaluz Ibn Hazm (993–1064), o listou entre os maiores médicos da Espanha islâmica. Sua primeira biografia detalhada foi compilada pelo historiador al-Ḥumaydī, seis décadas após a morte de al-Zahrawi.

Bibliografia:

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