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a aliança Abássida-Carolíngia

  • Foto do escritor: Consultor Espiritual Arabe
    Consultor Espiritual Arabe
  • 13 de ago. de 2022
  • 5 min de leitura

''A guerra faz os mais improváveis antagonistas tornarem-se aliados'', essa frase pode muito bem resumir a aliança Abássida-Carolíngia entre os séculos VIIi e IX. Compartilhando inimigos em comum nas suas fronteira (omíadas e bizantinos), especula-se que ela tenha se formado primeiro entre Pepino, o Breve e o califa al-Mansur em 751, intensificando-se entre Harun al-Rashid e Carlos Magno. Os ex-partidários do Califado Omíada que estabeleceram-se firmemente no sul da Ibéria sob Abdul Rahman I, constituíam uma ameaça estratégica constante tanto para os carolíngios em sua fronteira meridional quanto para os abássidas no extremo oeste de seu domínio. Sucessivas incursões omíadas, mais famosamente a de Tours-Poiters em 732, representavam uma constante ameaça aos carolíngios desde a anexação da Septímania pelos muçulmanos ibéricos, que só seria liberada após a tomada de Narbone em 759. Em 777, governantes pró-abássidas do norte da Ibéria chegaram a contatar os carolíngios para um ataque combinado ao Emirado de Córdoba e Abdul Rahman I (que em contrapartida, era aliado de bizâncio). Esforços militares tangíveis no entanto só iriam se materializar sob Carlos Magno. Sulayman al-Arabi, o governador pró-abássida de Barcelona e Girona, enviou uma delegação a Carlos Magno em Paderborn, oferecendo sua submissão, junto com a lealdade de Husayn de Zaragoza e Abu Taur de Huesca em troca de ajuda militar contra Córdoba. Os três governantes pró-abássidas também comunicaram que o califa de Bagdá, Muhammad al-Mahdi, estava preparando uma força de invasão contra o governante omíada Abdul Rahman I. Após a selagem desta aliança em Paderborn, Carlos Magno marchou através dos Pirenéus em 778 à frente de todas as forças que pôde reunir. Suas tropas foram recebidas em Barcelona e Girona por Sulayman al-Arabi. Enquanto ele se movia em direção a Zaragoza, as tropas de Carlos Magno foram acompanhadas por tropas lideradas por Sulayman. Husayn de Zaragoza, no entanto, se recusou a render a cidade, alegando que ele nunca havia prometido a Carlos Magno sua lealdade. Enquanto isso, a força enviada pelo califado de Bagdá parece ter sido detida perto de Barcelona. Após um mês de cerco a Saragoça, Carlos Magno decidiu regressar ao seu reino. Em sua retirada, ele sofreu um ataque dos bascos no centro de Navarra. Como represália, ele atacou Pamplona, destruindo-a. No entanto, em sua retirada para o norte, seus homens foram emboscados na Batalha de Roncesvales em 15 de agosto de 778, novamente contra os bascos, findando assim a parte militar da aliança Abássida-Carolíngia. Contudo, a parte mais interessante desta história se dá para além do campo de batalha, nas trocas diplomáticas. Após essas campanhas, houve novamente numerosas embaixadas entre Carlos Magno e o califa abássida Harun al-Rashid de 797, aparentemente em vista de uma aliança carolíngia-abássida contra Bizâncio, que se opôs ao seu papel na Itália e sua reivindicação ao título de Imperador Romano, ou com o objetivo de obter uma aliança contra o Omíadas da Espanha novamente. A embaixada de 797, a primeira de Carlos Magno, era composta por três homens, o judeu Isaac, interprete, e os emissários Lantfrid e Sigimud. Em 799, Carlos Magno enviou outra missão ao território abássida, tendo em vista o Patriarca de Jerusalém, que lhe enviou como tributo as chaves do Santo Sepulcro e do Calvário, bem como um Estandarte de Jerusalém. Em 801, uma embaixada abássida chegou a Pisa, trazendo de volta os embaixadores carolíngios enviados quatro anos antes e os presentes do califa. Em 802, uma segunda embaixada foi enviada por Carlos Magno, que voltou em 806. Em 807, Rodbertus, embaixador de Carlos Magno, morreu ao retornar da Pérsia. Por sua vez, Abdallah, enviado de Harun al-Rashid, chegou a Carlos Magno em Aachen acompanhado por dois monges de Jerusalém, Jorge e Félix, que representavam o Patriarca Thomas. Harun al-Rashid também teria oferecido a custódia dos lugares sagrados em Jerusalém a Carlos Magno. A terceira e última embaixada foi enviada por Carlos Magno em 809, mas chegou após a morte de Harun al-Rashid. A embaixada voltou em 813 com mensagens de amizade, mas poucos resultados concretos. As embaixadas enviadas por Carlos Magno levavam consigo peças de tecido rubro fabricadas no reino franco, consideradas de valor em território abássida. Além disso, Carlos Magno patrocinou a construção da Igreja de Santa Maria em Jerusalém e sua biblioteca, bem como todos os seus embaixadores levavam somas em dinheiro como tributo. Harun al-Rashid teria enviado vários presentes a Carlos Magno, incluindo sedas, um candelabro de latão, perfumes, bálsamos, uma tenda multicolorida, peças de xadrez de marfim e um elefante de guerra chamado Abul al-Abbas. O elefante de combate enviado por Harun foi um dos presentes mais apreciados, porém acabou morrendo repentinamente em 810, enquanto Carlos Magno fazia campanha em uma cidade chamada Lippeham. Dentre os tributos ao rei franco, havia também um relógio de água automático feito de latão, ricamente ornado, que produzia um som ao passar de cada hora, que eram marcadas por pequenas figuras de cavaleiros móveis. Os presentes enviados por Harun levaram influencias artísticas abássidas à arte carolíngia. como os designs de azulejos multicoloridos que podem ter sido inspirados pela policromia islâmica dos anos 800 na Abadia de Lorsch (como um adendo, a contra-aliança de Córdoba e Constantinopla para combater a abássida-carolingia, traria as influencias bizantinas à arte andaluza). Trocas comerciais ocorreram entre os reinos carolíngio e abássida, e as moedas árabes se espalharam na Europa carolíngia nesse período. O ouro árabe teria circulado na Europa durante o século IX, aparentemente no pagamento da exportação de escravos, madeira, ferro e armas para terras orientais. Como um exemplo famoso, o rei inglês do século VIII, Offa de Mercia, ordenou a cunhagem de moedas de ouro com seu nome no modelo utilizadas pelo califa al-Mansur em 774. As moedas tinham o timbre de "Offa Rex" centrado no reverso, em meio a inscrições em árabe com motivos islâmicos. Em 831, o filho de Harun al-Rashid, o califa al-Mamun, também enviou uma embaixada a Luís I, o Piedoso. Essa embaixada também parece ter tido como objetivo promover o comércio entre os dois reinos. Contudo, dissensões internas impediram os carolíngios de novas aventuras na Ibéria contra o Emirado de Cordoba. Quase um século depois, Berta, filha de Lotário II da Lotaríngia e mãe de vários reis italianos do século X, também teria enviado uma embaixada ao califa abássida sl-Muktafi, solicitando amizade e uma aliança matrimonial.

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